Castro Soromenho

25/04/2010

Cândido Beirante

Filed under: Literatura — Tags:, — sobrecs @ 15:46

O professor Cândido Beirante faleceu no dia 13 de março. Reproduzimos a evocação apresentada no sítio da Servilusa:

“Professor sábio, bondoso e sonhador.

Nascido a 17 de Novembro de 1937, na Póvoa de Santarém, filho de Caetano Baptista Beirante e Júlia da Silva Ferreira, Cândido Beirante frequentou os seminários do Patriarcado de Lisboa e concluiu o liceu em Oeiras. Licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com a tese As Ideias de Ilustração e Progresso em Herculano e doutorou-se na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com a tese Castro Soromenho, um escritor intervalar.

Foi professor do Ensino Secundário em Lisboa, Santarém e Tomar e do Ensino Superior, na Universidade de Luanda e na Faculdade de Letras de Lisboa. Leccionou, ainda, no ISLA, na Universidade Autónoma e na Lusófona. Do casamento com Maria Ângela Beirante, nasceram duas filhas (Rute e Maria Antónia) e uma neta (Mariana).

Sabedoria e bondade, duas qualidades que raras vezes coexistem, eram marcas fortes da sua personalidade. Cândido Beirante destacou-se como um dos melhores especialistas dos estudos herculanianos e das literaturas africanas de expressão portuguesa. Dotado de uma vasta cultura, dominava áreas tão diversas como a Literatura, a Linguística, a Filosofia, a História e a Geografia. Foi um professor brilhante com o dom de despertar o interesse e a estima dos alunos.

Com natural generosidade e tolerância, sempre se relacionou com o seu semelhante de forma fraterna, simples e democrática, sem quaisquer preconceitos sociais e com especial atenção aos mais desprotegidos. Homem de fortes convicções religiosas, ninguém como ele soube pôr em prática os princípios em que acreditava.

Idealista e sonhador, Cândido Beirante manteve até ao fim dos seus dias a capacidade de se entusiasmar e de se encantar. Viveu com optimismo e soube aceitar com paciência heróica as adversidades. O seu desaparecimento deixou uma saudade imensa nos que com ele privaram. Faleceu no passado dia 13 de Março, vítima de doença oncológica, contra a qual lutou, corajosamente, durante três anos.” (Sevilusa)

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Em “Castro Soromenho: um escritor intervalar” (dissertação orientada pelo professor Salvato Trigo), Cândido Beirante, seguindo a norma moderna dos estudos ideológico-estéticos, afasta qualquer abordagem biografista e analisa o texto soromenho como objeto semiológico, cultural e verbal e como narrativa.

O autor enquadra a produção de Castro Soromenho em três feixes que “sem esforço, podem fazer-se coincidir com os três momentos da dialética: tese, antítese e síntese.” (p. 89). À tese corresponderia a primeira fase da obra de Soromenho, constituída pelos contos e romances que têm por tema a vida dos negros antes da chegada dos brancos. A segunda temática, formada pelos livros e estudos dedicados ao pioneirismo dos brancos da ocupação, seria a antítese da primeira. A trilogia de Camaxilo é vista como a síntese – porque é negação e superação das temáticas anteriores – que “excede, na dupla articulação estético-ideológica, tudo quanto fora produzido com o nome de Castro Soromenho”. (p. 89).

Os últimos parágrafos da dissertação resumem a análise de Beirante: “Soromenho é intervalar, porque homem “dividido ” intimamente entre a sua perspectiva europeia e a visão africana que adoptou, a partir de certa altura, denunciando as “mãos sujas” do colonialismo. Postado no limiar duma nova era, o autor alterna nas funções de cronista do mundo banto pré-colonial e nas de testemunha-censora das exacções coloniais.

Se a intervalaridade funcional em que está investido Soromenho, entre a literatura colonial e a literatura angolana em língua portuguesa, o impele à denúncia do passado morto, inibe-o, porém, de entrar na “terra prometida”, isto é, de partilhar da literatura dita “necessária” escrita durante a guerra colonial e mesmo no período posterior à independência política. O escritor é um colosso com um pé assente no passado, enquanto atira o outro pé, decididamente, para o futuro.

Uma das manifestações do epigonismo literário de Soromenho, bem representado na melhor ficção angolana contemporânea, diz respeito ao aproveitamento estético-estilístico da diglossia. Sobressai aqui como inovação linguística o emprego das falas diglóssicas, processo que atingirá expressão maior em Luandino Vieira, sendo característica também do estilo de Uanhenga Xitu, de Pepetela e de outros escritores angolanos.

Em síntese, perspectivada em bloco e associada ao percurso biográfico do autor empírico, a obra inscreve-se uma intervalaridade polissémica, exibindo uma “mestiçagem” cultural profundamente angolana. Castro Soromenho, escritor intervalar, é o maior romancista da Literatura Angolana.” (p. 716).

Independentemente de concordar-se ou não com a instigante, fundamentada e bela leitura que Beirante faz da obra de Castro Soromenho, o seu estudo figura (juntamente com os de Roger Bastide e Fernando Mourão), sem dúvida, como um dos mais significativos trabalhos sobre a obra do escritor. O livro de Cândido Beirante é, assim, referência fundamental e obrigatória para todos aqueles que se interessam pela literatura africana de expressão portuguesa.

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Alguns livros e artigos de Cândido Beirante:

A ideologia de Herculano: Da teoria do progresso da civilização às reformas regeneradoras de Portugal. Santarém: Junta Distrital, 1977.

Alexandre Herculano: as faces do poliedro.  Lisboa: Vega, 1991.

Alexandre Herculano: um homem e uma ideologia na construção de Portugal. Antologia. Organização, prefácio e notas de Cândido Beirante e Jorge Custódio. Livraria Bertrand, Lisboa, 1979.

Antologia temática da poesia africana: o canto armado, de Mario de Andrade. In: África, literatura, arte e cultura, n. 5 (1979), p. 599-600.

Antologia temática de poesia angolana I, de Mario de Andrade. In: África, literatura, arte e cultura, n. 3 (1979), p. 348-350.

Camaxilo: A Metáfora do Espaço Infernal Em Castro Soromenho. União dos Escritores Angolanos.

Carta de Angola: balanço do ano literário de 1972. In: Colóquio: Letras / Fundação Calouste Gulbenkian, n. 12, (março 1973), p. 75-77.

Carta de Angola: balanço do ano literário de 1973. In: Colóquio: Letras / Fundação Calouste Gulbenkian, n. 19 (maio 1974), p. 74-76.

Carta de Angola. In: Revista Colóquio/Letras. Cartas, n. 19, maio 1974, p. 74-76.

Castro Soromenho: um escritor intervalar. Lisboa, 1989.

Dois poetas angolanos: duas etapas do mesmo caminho. In: Colóquio/Letras, / Fundação Calouste Gulbenkian, n. 39, set. 1977, p. 65-68.

Herculano em Vale de Lobos. Santarém: Junta Distrital, 1977.

Heróis epónimos da angolanidade: a história revisitada. In: Estudos de literaturas africanas: cinco povos, cinco nações. Org. Pires Laranjeira, Maria João Simões, Lola Geraldes Xavier. Coimbra: Novo Imbondeiro: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2005, p. 137-145

O Pinhal de Cabeção. (Com Maria Ângela Beirante).  Lisboa: Colibri, 2009.

Poesia com armas, Costa Andrade / Costa Andrade. In: África, literatura, arte e cultura, n. 2, 1978, p 220-222.

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